Revista Rolling Stone: Por Dentro da Scientology (parte 1)

Clique AQUI para abrir o índice dos posts mais importantes a respeito da organização criminosa autodenominada religião (O que é Cientologia, Dianética, Quem foi seu fundador L. Ron Hubbard, O Grande Segredo da Cientologia)

Por Dentro da Scientology, por Janet Reitman

Publicado em 23 de fevereiro de 2006.

Matéria da Revista Rolling Stone, de 2006, a respeito da seita da Scientology. Leia aqui a matéria original, em inglês, no site oficial da revista.

Matéria traduzida da forma mais fiel o possível, com pequenas alterações para melhor compreensão em português.

A apática região central da cidade de Clearwater, na Flórida, tem um salão de beleza, uma pizzaria, um ou dois bares, um punhado de bangalôs ressecados e algumas vitrines que parecem não ver clientes a anos. Alguns carros e quase nenhum pedestre. No entanto, há ônibus – uma frota branca e azul brilhante que rasteja vagarosamente pela cidade, parando em intervalos regulares para descarregar um exército de jovens rigidamente organizados, compostos quase que exclusivamente de pessoas brancas, prensadas em uniformes pré-escolares: calças cáqui, pretas ou azuis-marinho e camisas brancas, azuis ou amarelas. Alguns trazem pagers presos ao cinto; outros carregam maletas. Os homens têm cabelos curtos e as mulheres os prendem para trás ou amarram sob bandanas que combinam com suas roupas. Ninguém atravessa a rua no sinal de PARE, e todo mundo chama todo mundo de “senhor” — mesmo se o “senhor” é uma mulher. Eles movem-se pelo centro de Clearwater em grupos coesos, de esquina a esquina, de prédio em prédio.

Propaganda da Sea Organization

A massa regimentada representa a “Sea Organization” (ou simplesmente Sea Org), que é a elite, os membros mais dedicados da Igreja da Scientology. Nos últimos 30 anos, a Scientology transformou a cidade de Clearwater em seu quartel general espiritual internacional — sua “Mecca”, ou sua “Temple Square” (a sede da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Há cerca de 8.300 scientologists vivendo e trabalhando em Clearwater — quantidade inferior somente a Los Angeles. Scientologists são donos de mais de 200 negócios em Clearwater. Membros da igreja administram escolas e programas particulares de tutela, creches e clínicas de reabilitação anti-drogas. Eles compõe as mesas do Rotary Club, Câmara do Comércio e dos Escoteiros.

Em julho de 2004, o jornal The St. Petersburg Times definiu Clearwater, uma comunidade de 108 mil pessoas, como sendo a “Cidade da Scientology”. Na capa do jornal estava uma foto do mais novo prédio da Scientology, um vasto edifício, branco, estilo revival Mediterrâneo, conhecido nos círculos da Scientology como o prédio “Super Power“. Ocupando uma quadra inteira do centro da cidade, esta estrutura, que começou a ser construída em 1998, é tida como a maior igreja da Scientology do mundo. Quando estiver finalmente terminada — presumidamente no final de 2006, ao custo estimado de U$ 50 milhões — ela terá 889 salas em seis andares, um jardim interno escultural e um grande museu da Scientology. A coroação será feita por uma luminosa cruz da Scientology de 2 andares, que preso sobre a torre mais alta do prédio, irá brilhar por toda a cidade de Clearwater como um farol.

Tom Cruise e a Cruz da Scientology

Scientology (Cientologia) — o termo significa “o estudo da verdade,” nas palavras de seu fundador e messias espiritual, o escritor de ficção científica L. Ron Hubbard — autoproclamou-se a “religião que mais cresce no mundo”. Nascido em 1954, o grupo alega ter 10 milhões de membros em 159 países, e mais de 6.000 igrejas, missões e grupos ao redor do mundo. Seu patrimônio, que inclui imóveis em diversos continentes, presumidamente valem bilhões de dólares. Seus missionários — conhecidos como ‘ministros voluntários — tomam parte na cruzada pelos países em desenvolvimento e podem ser vistos, em massa, nos locais de desastres, do 11 de setembro, o tsunami asiátio e até o furacão Katrina. No comparativo entre religiões, alguns acadêmicos vêem a Scientology como um dos movimentos religiosos mais significativos do último século.

A Scientology é também a religião mais controversa da América: amplamente ridicularizada, mas pouco compreendida. Ela está enraizada em elementos do Budismo, Hinduismo e inúmeras filosofias orientais, incluindo aspectos do Cristianismo. O sociologista francês Regis Dericquebourg, um expert em comparativos entre religiões, explica que o sistema de crenças da Scientology é uma ‘utopia regressiva‘, no qual o homem busca retornar a um estado perfeito, através de vários processos meticulosos e rigorosos, que objetivam colocá-lo em contato com seu espírito primordial. Esses processos são altamente controlados, e, em níveis avançados, altamente secretos.

Críticos da Scientology apontam que a Scientology é a única dentre todas as religiões a esconder aspectos de sua teologia principal de todos, com exceção dos seus seguidores mais exaltados. Como comparação, isso seria como se a Igreja Católica se recusasse a dizer, com exceção à um pequeno grupo, que Jesus Cristo morreu pelos pecados da humanidade.

Em junho do ano passado (2005), preparei-me para descobrir a Scientology, uma tarefa que levaria 9 meses. Uma fé de círculo fechado, que é frequentemente hostil a questionamentos da imprensa. A igreja não ofereceu nenhuma ajuda inicial nesta história; quase toda a minha pesquisa foi feita sem nenhuma assistência e envolveu dezenas de entrevistas a atuais e ex-scientologists, bem como pesquisadores acadêmicos que estudam o grupo. Por fim, entretanto, a igreja decidiu cooperar e me concedeu acesso sem precedentes a seus executivos, programas sociais e importantes sedes religiosas. O que descobri foi uma fé que está na grande mídia e ao mesmo tempo é marginalizada — uma comunidade religiosa conhecida por seus membros de Hollywood, mas administrada por uma facção que raramente, ou nunca, aparece em público. É uma sociedade insular — existe, em grande escala, como algo paralelo ao mundo secular, com sua própria nomenclatura, código ético e, para desencorajar aqueles que quebram as regras, a aplicação de um sistema de justiça altamente rigoroso.

Scientologists, assim como Mormons ou Cristãos evangelicals, consideram-se em uma missão. Eles falam freqüentemente em “ajudar pessoas,” e essa missão é repetida em inúmeros testamentos da igreja. “Scientologists vêem a si mesmos como detentores de doutrinas e habilidades que podem salvar o mundo, talvez a galáxia,” diz Stephen Kent, um professor de sociologia na Univerdade de Alberta, no Canadá, que fez um extenso estudo sobre o grupo.

Executivos da igreja alegam que a Scientology cresceu mais nos últimos 5 anos do que nos últimos 50 anos. Algumas evidências, no entanto, provam o contrário. Em 2001, uma pesquisa realizada pela Universidade City de Nova York encontrou somente 55 mil pessoas nos Estados Unidos que se proclamavam scientologists. Em escala mundial, alguns observadores acreditam que um razoável para membros praticantes dos ensinamentos da Scientology seria de 100 a 200 mil, concentrados nos Estados Unidos, Europa, África do Sul e Australia. De acordo com as próprias listas da igreja, muitas das quais disponíveis em uma publicação da igreja e também na internet, em 2004 apenas 6.126 pessoas se matricularam para serviços religiosos da organização. O pico ocorreu em 1989, com 11.210 pessoas matriculadas, e desde lá o número vem caindo. Para alguns observadores, isto sugere que na verdade a Scientology está de fato encolhendo.

Mas descobrir o que é verdade a respeito da Igreja da Scientology não é uma tarefa fácil. Isenta de tributação desde 1993 (após uma longa batalha legal contra a Receita Federal), a Scientology não disponibiliza nenhuma informação a respeito de suas taxas de afiliação ou suas finanças. Também não aceita análise de seus textos ou práticas. A igreja tem uma longa e documentada reputação de esmagar seus críticos através de processos judiciais, e de acordo com alguns relatórios, intimida-los (fato que pode explicar o por que os criadores do desenho South Park decidiram mudar todos os nomes dos créditos para João ou Maria Ninguém, no episódio (clique aqui para assistir) em que criticam a Scientology; a Paramount, pressionada, concordou em não reprisar o episódio nos Estados Unidos ou na Inglaterra).

Mesmo assim, os críticos da Scientology formam uma considerável rede, com ex-membros (ou “apostates” na gíria da igreja), acadêmicos e ativistas da liberdade de expressão e de direitos humanos como a Watcher, que declarou guerra contra o grupo ao postar na internet um número significativo de informações antes desconhecidas, que incluem scans de memos controversos, fotos e resumos jurídicos, bem como testemunhos de ex-membros desiludidos, incluindo alguns membros do alto escalão da Sea Org. Todos apontam para a igreja como negativa e até mesmo abusiva.

Quando perguntado se algo postado pelos apostates é verdade, Mike Rinder, o diretor da ala jurídica e de relações-públicas da Igreja da Scientology, conhecida como Office of Special Affairs (OSA – Escritório para Assuntos Especiais), diz que “é tudo besteira, praticamente.”

Mike Rinder

Mas ele admite que a Scientology está em campanha para melhorar sua imagem. Mike Rinder diz que mais de 23 milhões de pessoas visitaram o website da Scientology no ano passado (2005). Além disso, a igreja alega ter recebido 289 mil minutos de cobertura de rádio e TV em 2005, muitos dos quais voltados às ações de Tom Cruise, o scientologist mais famoso do mundo, que passou grande parte da primavera e verão de 2005 promovento a Scientology e suas crenças para entrevistadores como Oprah e Matt Lauer.

Tom Cruise & Oprah

Logo após a Rolling Stone decidir embarcar nesta história, Tom Cruise ligou para nosso escritório para dizer que ele não iria participar. Muitas semanas depois, a revista foi visitada por Mark Rinder e Lee Anne DeVette, irmã de Tom Cruise, scientologist de nível alto e recentemente sua relações públicas. Ambos expressaram descontentamento com coberturas anteriores da Scientology pela mídia, e nos avisaram a respeito da não-credibilidade dos críticos da igreja — “os pirados” — como Mark Rinder os descreveu. Ele então convidou a Rolling Stone para visitar Los Angeles e conhecer a “verdadeira Scientology” — uma visita que demorou cinco meses para ser preparada.

Algumas das pessoas que falaram com a revista, a respeito do tema do artigo, o fizeram pela primeira vez em suas vidas. Muitas, ao falar de suas vidas na igreja, solicitaram que suas identidades fossem protegidas com a alteração de seus nomes e outras características. Outras insistiram que nem mesmo seu sexo fosse comentado.

Sempre haverá separações em qualquer grupo religioso, bem como pessoas que, após abandonarem sua fé, decidem se ‘purificar’ de suas experiências. Isto é particularmente verdadeiro no caso de membros das auto-proclamadas novas religiões, que frequentemente exigem total comprometimento de seus membros. Scientology é uma dessas religiões.

“Nós não estamos fazendo uma pequena brincadeira em Scientology,” escreveu Hubbard em um papel sobre política da organização chamada “Mantenha Scientology Funcionando”, que é leitura obrigatória para todos os membros. “Todo o futuro agonizante deste planeta, cada homem, mulher ou criança nele, e seu próprio destino para os próximos intermináveis trilhões de anos dependem do que você fizer aqui e agora e na Scientology. Esta é uma atividade seriamente mortal.”

* * * *

VIGILÂNCIA

É impossível ir a qualquer lugar no centro de Clearwater sem ser observado por câmeras de segurança. Há cerca de 100 delas, instaladas em todas as propriedades da Scientology, que incluem vários hotéis, um antigo banco e inúmeros prédios administrativos. As câmeras estão voltadas para os próprios prédios e para as ruas.

Enquanto alguns acham isso perturbante, Natalie Walet, 17 anos, acha que é normal. “É só uma questão de segurança.” diz ela ao tomar café no Starbuck do centro. Ela observa que os prédios da Scientology estão sempre sendo pichados e protestos ocorrem com freqüência, fato que ela vê como intolerância religiosa. “É uma igreja que muitas pessoas odeiam, e algumas delas são bundonas,” ela diz. Dito isto, Natalie acrescenta que a maioria da população de Clearwater tem “altíssimos padrões morais — são pessoas éticas.”

Natalie é uma garota bonita, com um longo rabo de cavalo preto, nascida e criada na Scientology. Ambos os pais e avó são membros da igreja, e estão envolvidos nos centros da Scientology espalhados por Clearwater. Mas a igreja tem outros centro, incluindo a sede organizacional em Los Angeles, lar da Igreja da Scientology International; e o Freewinds, cruzeiro de 440 pés que atraca em Curacao e é utilizado como para treinamentos, reuniões e destino de férias para scientologists de renome, incluindo Tom Cruise e John Travolta. Há também a chamada “Gold Base”, a exclusiva sede do Religious Technology Center, ou RTC, o centro financeiro da igreja, localizado a cerca de 80 milhas a sudeste de Los Angeles, lar de David Miscavige, 45 anos de idade, o carismático líder da igreja internacional.

Freewinds

David Miscavige

David Miscavige, atual CEO da Scientology

O dia-a-dia de Natalie é uma verdadeira submersão no universo de Hubbard. Crianças da Scientology são criadas de uma maneira muito diferente das outras crianças. A maioria delas, como Natalie, foi educada por tutores especiais, e matriculadas, como Natalie quando era mais nova, em escolas particulares administradas por scientologists que utilizam técnicas de estudo aprovadas pro Hubbard. A maioria das crianças também são colocadas ‘em cursos’ — matriculadas em aulas na igreja que ensinam adultos e crianças habilidades de auto-controle, concentração e comunicação. Natalie foi colocada ‘em curso’, mesmo contra sua vontade, quando tinha sete ou oito anos de idade. A vida era uma espécie de bolha, diz ela, entre a escola e a igreja.

É uma noite húmida, e Natalie está vestida com uma blusa sem mangas, cintura Empire e jeans justinho; suas unhas curtas e roídas estão pintadas de vermelho. Ela acende um Marlboro Menthol. O fumo é o único vício de Natalie. Ela não bebe e não usa drogas de nenhuma espécie — “muito raramente eu tomo um Tylenol,” diz ela. “Mas só quando minha dor de cabeça é muito forte.” Ela fica embaraçada ao admitir isso, porque os scientologists afirmam que muitas doenças são psicossomáticas, e não acreditam em tratamentos com medicamentos, nem mesmo aspirina.

Como todos os scientologists, Natalie considera seu corpo apenas uma embarcação temporária. Ela se imagina um ser imortal, ou “thetan,” o que significa que ela já viveu trilhões de anos, e irá continuar a renascer para sempre. Muitas religiões orientais tem a mesma crença, e Natalie é rápida ao comentar que a Scientology é “na verdade uma religião básica. Suas crenças morais são muito parecidas com outras (religiões).” O que é especial sobre a scientology é que ela “traz uma tecnologia aplicável que você pode utilizar no seu dia-a-dia.”

“Technology,” ou “tech,” é como os scientologists chamam as teorias, métodos e princípios expostos por L. Ron Hubbard — “LHR”, como Natalie o chama. Para o devoto, Hubbard é parte profeta, parte professor, parte salvador — alguns scientologists classificam a importância de Hubbard como sendo maior do que de Jesus Cristo — e a palavra de Hubbard é considerada ‘a palavra’. Hubbard foi um escritor prolífico por toda a sua vida; há milhões de palavras que são creditadas a ele, duzentas e cinqüenta mil apenas no Dianética, o best-seller pseudocientífico de auto-ajuda que é o texto mais famoso da Scientology.

Publicado em 1950, a Dianética afirma que a fonte de todas as doenças mentais e físicas podem ser rastreadas até as cicatrizes psíquicas chamadas “engrams”, que foram enraizadas em experiências anteriores, até mesmo antes da concepção. e ficaram trancadas no subconsciente de uma pessoa, sua “mente reativa”. Para uma pessoa se livrar de sua mente reativa, um processo conhecido como “tornar-se Clear”, a Dianética, e posteriormente a Scientology, pregam uma técnica de terapia regressiva chamada de “Auditing”, que envolve retornar a incidentes da vida passada de uma pessoa a fim de apagar seus engramas.

Natalie é fã de auditing, pois é algo que vem fazendo desde que era criança. A grande parte das auditing são realizadas com um aparelho chamado de electropsychometer, ou simplesmente E-meter. Freqüentemente comparado a detectores de mentira, os E-meters medem as mudanças nas pequenas correntes elétricas do corpo, em respostas a questões feitas por um auditor. Scientologists acreditam que o medidor registra pensamentos da mente reativa e que pode expor mentiras inconscientes. Natalie explica que o E-meter é “como um guia que ajuda o auditor a saber que perguntas fazer.” Algumas vezes, ela diz, você pode não se lembrar de certos eventos, e você não saberá o que está causando seus problemas. “Mas eles vão cavando até você chegar no ponto de dizer, “C****, era isso que estava acontecendo?” Ela sorri. “E depois disso você se sente muito melhor.”

PONTE PARA A LIBERDADE TOTAL

Apesar da vida toda dentro da Scientology, o caminho de Natalie para a iluminação está apenas começando. A iluminação na Scientology é conhecida como “A Ponte para a Liberdade Total.” Há estágios específicos, ou “grades”, da Ponte, e a chave para prosseguir adiante é a auditing: centenas, senão milhares de sessões que os scientologists acreditam ajuda-los a resolver não só os seus problemas como suas falhas éticas, algo parecido com o que os católicos fazem ao confessar seus pecados. O objetivo final de cada sessão de auditing é ter um “win,” um ganho, ou um momento de revelação, que pode levar alguns minutos, algumas horas ou até mesmo semanas — scientologists não podem deixar uma sessão até que seu auditor esteja satisfeito.

Até agora, Natalie vem recebendo auditing de graça, através de seus pais, que trabalham para a igreja. Mas muitos scientologists pagam pelos serviços. Única entre as religiões, a Scientology cobra por todos os serviços religiosos. Auditing é adquirida em blocos de 12 horas e 30 minutos, conhecidos como “intensivos”. Cara intensivo pode custar em torno de U$ 750,00 para uma sessão introdutória até algo em torno de U$ 8.000,00 a U$ 9.000,00 para sessões avançadas. Ao serem perguntados a respeito do dinheiro, os oficiais da igreja podem ficar na defensiva. “Você quer saber a resposta de verdade? Se nós pudéssemos oferecer tudo de graça, nós iríamos,” diz Mike Rinder. Outro oficial diz “nós não podemos contar com 2.000 anos de riquezas adquiridas.” Mas a Scientology não está sozinha, insistem os líderes da igreja. Os Mormons, por exemplo, esperam que seus membros doem um décimo de seus rendimentos.

Ainda assim, estudiosos de religiões observam que trata-se de uma abordagem não tradicional. “Dentre tantas coisas que tornaram este movimento tão controverso,” diz S. Scott Bartchy, diretor do Centro para Estudos de Religiões da UCLA, “são suas alegações de que suas terapias são ‘científicas’ e que a ‘verdade’ será revelada somente à aqueles que tem dinheiro para comprar os avanços dos vários níveis que levam a pessoa a tornar-se ‘clear.’ É essa sua exigência descarada por dinheiro que levou muitos observadores a opinar que toda essa operação parece mais com um empreendimento comercial do que uma religião.” Avançar pelos níveis da Ponte para a Liberdade Total é um processo que pode levar vários anos e custar dezenas, freqüentemente milhares de dólares — uma scientologist veterana me disse ter “doado” U$ 250.000,00 durante um período de 20 anos. Outros scientologists admitem ter gasto toda a herança familiar e penhorado imóveis familiares para pagar pelas taxas. Muitos, como os pais de Natalie, trabalham para a igreja local para receber auditing e cursos de graça.

Os pais de Natalie são Clear, diz ela. Sua avó é o que chamam de “Operating Thetan,” ou “OT.” O mesmo ocorre com Tom Cruise, que está próximo ao topo da Ponte da Scientology, no nível conhecido por “OT VII.” OTs são a elite da Scientology — seres iluminados que, segundo dizem, têm “controle” total sobre si mesmos e sobre o ambiente. OTs podem, supostamente, mover objetos inanimados com suas mentes, sair de seus corpos voluntariamente e comunicar-se telepaticamente e controlar o comportamento de outros seres humanos e animais. Nos níveis mais altos, eles supostamente são libertados do universo físico, ao ponto de poderem controlar o que os scientologists chamam de MEST: Matter, Energy, Space e Time (Matéria, Energia, Espaço e Tempo).

* * * *

OT III (Wall of Fire) E LORD INTERGALATICO XENU

O mais importante, e altamente antecipado, dos oito níveis “OT” é o “OT III”, também conhecido por “Wall of Fire” ou ‘parece de fogo’. É nele que os scientologists são informados dos segredos do universo, e, acreditam alguns, a História da Criação por trás da religião. Esse conhecimento é tão perigoso, dizem, que qualquer scientologist que aprender este material antes de estar preparado pode morrer. Quando perguntei isto a Mike Rinder, ele diz que o aviso na verdade é mais brando. Ele explica que, antes de atingir o nível OT III — ele agora é OT V — ele havia sido informado de que olhar para o material seria apenas “espiritualmente prejudicial.” Mas Hubbard, que disse a seus seguidores ter descoberto esses segredos em uma viagem para o norte da África em 1967, foi mais dramático. “De alguma forma ou outra eu descobri, e obtive o material e consegui sobreviver a ele,” escreveu Hubbard. “Estou certo de que eu fui o primeiro a sobreviver a todas as tentativas de obter aquele material.”

Scientologists devem ser convidados para fazer o OT IIII. Antes disto, eles são postos em um processo intensivo de auditing para verificar se eles estão prontos. Eles assinam um contrato prometendo nunca revelar os segredos do OT III, nem responsabilizar a Scientology por qualquer trauma ou dano que podem sofrer durante este estágio de auditing. Ao fim, eles recebem os documentos, que devem ser lidos em particular, em uma sala trancada.

A Igreja da Scientology lutou por muito tempo para manter estes documentos secretos, mas eles foram publicados online por um antigo membro em 1995 e têm circulado amplamente na grande mídia, desde o New York Times até um episódio da série animada South Park.

Esse material asserta que 75 milhões de anos atrás, um lorde galático do mal chamado Xenu controlava setenta e seis planetas neste canto da galáxia, cada qual superpopuloso. Para resolver este problema, Xenu reuniu 13.5 trilhões de seres e enviou-os para a Terra, onde foram jogados em vulcões ao redor do planeta e vaporizados com bombas. Isso espalhou suas almas radioativas, ou thetans, até que fossem pegos por armadilhas eletronicas espalhadas pela atmosfera e “implantadas” com inúmeras idéias falsas — incluindo o conceito de Deus, Cristo e religiões organizadas. Mais tarde os scientologists aprendem que muitas dessas entidades anexam-se a seres humanos, onde permanecem até os dias de hoje, criando não somente as raízes de nossos problemas emocionais e físicos, mas também raízes de todos os problemas do mundo moderno.

“Hubbard achou que era importante ter uma história sobre como as coisas continuam, similarmente à forma como os Judeus e os Cristãos fizeram com os capítulos iniciais do Genesis,” diz Scott Bartchy, da UCLA. “Todas as religiões vivem da sensação de que algo na vida está terrivelmente errada ou profundamente ausente. Em sua maior parte, o Cristianismo alegou que pessoas se rebelaram contra Deus com o resultado de que eles agora são ‘pecadores’ necessitando de salvação e que o mundo é um lugar injusto que precisa de cura. O que Hubbard parece ter dito foi que os seres humanos são na verdade outra coisa — thetans presos em corpos deste mundo material — e que a Scientology pode acordá-los e ao mesmo tempo salvá-los desta terrível situação.”

A igreja considera OT III material confidencial. Mas há inúmeras referências de ficção científica nos textos da Scientology disponíveis para qualquer membro. O “Glossário Oficial da Scientology e Dianética” inclui passagens para “space opera“, uma espécie de ficção científica que o glossário diz “não ser ficção e envolver incidentes reais.” O “Dicionário Técnico” da Scientology faz referência a um número de “forças de invasão” extraterrestres, incluindo uma chamada “Marcab Confederacy,” que seria uma civilização interplanetária com mais de 200.000 anos, que “parece quase uma cópia exata (sic) mas é pior do que a atual civilização dos Estados Unidos.” De fato, como o próprio Mike Rinder admite, Hubbard apresentou uma indicação da história de Xenu a seus seguidores em uma fita de leitura de 1967, chamada “RJ 67”, na qual ele alega que ha 75 milhões de anos atrás um evento cataclísmico ocorreu neste setor da galáxia que causou efeitos negativos a todos até os dias de hoje. Este material está disponível para scientologists de nível mais baixo. Mas os detalhes da história permanecem sob a guarda da Scientology.

Mike Rinder têm protegido questões sobre a crença da scientology por anos. Quando pergunto a ele se há alguma validade para a história de Xenu, sua face fica vermelha, quase explodindo em um discurso. “Não é uma história, é um nível de auditing,” ele diz, não confirmando nem negando que esta teologia existe. Ele diz que o material do OT — e especificamente o material no OT III — representam uma ‘pequena porcentagem’ do que é a Scientology. Mas é cuidadosamente guardada. Scientologists dos níveis OT frequentemente levam seus materiais em maletas trancadas e guardam em locais seguros em suas casas. Eles também são proibidos de discutir qualquer ponto do material, mesmo com seus familiares. “Eu não vou ter explicar, e eu não conseguiria te explicar,” diz Mike Rinder acaloradamente. “Você não tem menor chance de entender.”

Aqueles que experimentaram o OT III e decidem falar relatam que a experiência pode ser angustiante. Tory Christman, uma ex-scientologist do alto escalão, que durante sua viagem pela fé alcançou quase o topo da iluminação, chegando a OT VII na escala máxima de OT VIII, diz que levou mais de 10 anos até que ela ser convidada para OT III. Uma vez ali, ela ficou chocada. Você passou por todos esse círculos só para chegar ali, e então você abre aquele pacote, e a primeira coisa que você pensa é, ‘ora, que isso,’ diz ela. “Você está cercada por todas essas pessoas que ficam repetindo, ‘uau, não é incrível, só de receber os dados? Eu posso dizer que aquilo realmente te transformou.” Depois de um tempo e várias pessoas dizendo isso a você, você começa a pensar, ‘uau, sabe, eu realmente estou sentindo (a mudança).”

Jason, Tory, Mark e Andreas

Natalie tem um longo caminho até alcançar OT III. Apesar de que quase tudo sobre os níveis OT estarem disponíveis na internet, ela diz não olhar para aquela coisa. Ela acredita que quase tudo aquilo é “entheta,” que são mentiras ou informações negativas sobre a Scientology para minar a fé. “Sabe, algumas vezes na escola, crianças ao saberem que somos scientologists, nos perguntam se somos scientologists,” diz Natalie. “Eu não fico brava, apenas explico é a Scientology de verdade.”

A visão de Natalie a respeito da Scientology é aquela que os executivos da igreja promovem: que não se trata de uma religião sobre alienígenas, mas simplesmente um jogo de crenças que podem ajudar uma pessoa a ter uma vida melhor. E Natalie parece ser a criança-poster para a Scientology como uma formula da adolescência bem ajustada. Articulada e balanceada, ela é próxima da família, tem grande círculo de amigos scientologists e não scientologists e se formou na faculdade como estudante nota A. “Eu não digo que todo mundo deve ser scientologist,” diz ela. “Mas digo que eu vejo ela funcionar. Aprendi muito a respeito de mim mesma. LRH dizia que ‘o que é verdade para você é o que você observar ser verdadeiro.’ Então eu não estou aqui para te dizer que a Scientology é o caminho, ou estas são as respostas. Você decide o que é verdade.”

CONTINUA…

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One thought on “Revista Rolling Stone: Por Dentro da Scientology (parte 1)

  1. eu sempre acreditei que existiria vidas em outros planetas como eu descobrir que vocês tem uma seita disto eu queria participa dela tambem e como eu faço pra poder participar?.Espero resposta meu nome é josias e moro na bahia em salvador

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