Jason Beghe: A Primeira Celebridade Desertora Revela Segredos da Scientology

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O semanário Village Voice publicou, em abril deste ano, uma entrevista com o veterano ator de TV Jason Beghe, que por muitos anos foi um dos garotos propaganda da seita da Scientology, tendo narrado e atuado em diversos vídeos de propaganda da organização.

Leia a seguir a entrevista traduzida na íntegra, com pequenas adaptações para melhor compreensão em português.

A primeira celebridade a desertar revela segredos da Scientology

Link original (em inglês): Scientology’s First Celebrity Defector Reveals Church Secrets
“Eu fui o garoto favorito de (David) Miscavige,” diz o ator Jason Beghe
Por Tony Ortega
15 de abrill de 2008

O veterano ator de televisão Jason Beghe explica ao Village Voice que a Igreja da Scientology foi pega de surpresa pelo seu vídeo no YouTube que chegou à Internet no dia 14 de março.

Antigas frustrações com a igreja motivaram Beghe a deixar a Scientology sete meses atrás, após ter passado cerca de 12 anos na organização como uma das histórias de sucesso mais cultuadas. Por cerca de um ano, ele negociou sua “desassociação” da igreja, tentando dar aos executivos da igreja a impressão de que ele estava partindo em bons termos.

Na realidade, diz ele, ele já estava planejando a tornar pública sua opinião a respeito da controversa religião de L. Ron Hubbard.

Beghe atuou recentemente no seriado Cane, da CBS, e tem sido uma presença freqüente na televisão desde os anos 80, tendo participado de seriados como Everwood, JAG e Numb3rs. Da noite para o dia, entretanto, ele está se ficando mais conhecido por ser a primeira celebridade da Scientology a criticar publicamente a igreja. Os serventes de Hubbard gostam de celebridades mais do que qualquer outra religião, e embora algumas, como Nicole Kidman, estiveram envolvidas por pouco tempo com a organização, nenhuma outra celebridade com a experiência de Beghe denunciou-a tão publicamente.

Falando por telefone de sua casa, em Malibu, Beghe, 48 anos, diz que o vídeo de 3 minutos é parte de um vídeo mais longo. Após deixar a igreja, Beghe chegou até o norueguês Andreas Heldal-Lund, que dirige a Operação Clambake (xenu.net), provavelmente o website anti-Scientology de mais fácil compreensão na Internet. Heldal-Lund convenceu-o a se encontrar com outro dos críticos mais famosos da igreja, Mark Bunker, conhecido como “sábio homem barbudo (Wise Beard Man)” pelo “anonymous“, um movimento que nos últimos meses organizou protestos contra a Scientology pelo mundo todo.

“Eles vieram até a minha casa, e nós passamos o dia juntos. Eles prepararam a câmera e eu soltei a voz. E mal pude arranhar a superfície,” diz Beghe.

Nascido em Nova York, Beghe deixou com facilidade sua carreira de modelo pela carreira de ator. “Eu sou um daqueles caras que trabalham. Eu nunca tive problema em conseguir um trabalho,” diz ele. “Eu nunca me tornei um grande astro, mas eu nunca parei de trabalhar.” Beghe diz que decidiu aprender mais sobre a religião em 1994, quando participou das aulas de atuação do scientologist Milton Katselas.

Então ele aproximou-se de outro aluno das aulas, Bodie Elfman, que deu a Beghe uma cópia de “O que é Scientology“, uma publicação que apresentou a ele a idéia de que L. Ron Hubbard havia descoberto uma “tecnologia” da mente que supostamente permite ao devoto alcançar poderes super-humanos. O “purification rundown”, um ritual de desintoxicação, chamou sua atenção, diz Beghe. “Essa coisa de ‘clear’ também parecia boa,” acrescenta ele.

Os seguidores de Hubbard acreditam que se um membro da igreja se submete a um processo progressivamente complexo (e progressivamente mais caro), conhecido como “A Ponte”, eles destravarão habilidades da mente até tornarem-se clear, ter controle total sobre as lembranças, sair de seus corpos e serem imunes a doenças.

Após ler o livro que Elfman lhe deu, Beghe diz que estava pronto para abusar. “Quero mais Scientology, cara,” ele se recorda de ter pensado.

E não demorou para ele ficar viciado. Em sua primeira sessão de treinamento, fazendo o que no vocabulário de Hubbard é chamado de “OT TR Zero”, ele teve que aprender a “confrontar”. O que, estranhamente, significava ficar sentado imóvel com os olhos fechados.

“Você senta-se com os olhos fechados a um passo de outra pessoa, relaxado. Você fica lá sentado e confronta alguém, resoluto, até ter um “grande e estável ganho,” diz ele. Tradução: após tentar permanecer perfeitamente imóvel por vinte minutos, ele teve uma revelação.

“Eu meio que saí do meu corpo, e percebi, em um novo sentido, quem eu era. E foi como, `Oh, caramba.'”

Ele explica que quando era criança, ele percebeu que ele era alguém que tinha uma enorme curiosidade sobre espiritualidade. Ele recorda que ele olhava para outra pessoa, nos seus olhos, e sentia que ele poderia aprender algo essencial sobre ela. Mas quando ele olhava no espelho, ele não tinha a mesma sensação. “Quem sou eu?” tornou-se seu mantra, ele diz, provavelmente muito antes disso acontecer com a maioria dos adolescentes. Isso levou-o a ter um senso de aventura sobre assuntos espirituais.

Agora, repentinamente, parecia ter encontrado uma resposta. “Eu não sou Jason Beghe. Aquilo é só um corpo, como um carro. E eu sou a pessoa que o está dirigindo. Parecia que era a primeira vez que eu sabia quem eu era.”

Mas agora que ele abandonou a igreja, ele credita aquela sensação a algo que L. Ron Hubbard teria descoberto, ou seria algum outro fenômeno psicológico? A apenas sete meses fora da organização, ele admite que essa pergunta nunca havia sido feita a ele antes.

“Aparentemente há um nível de hipnose ou lavagem cerebral ou o que quer que você queira chamar, e esse treinamento é uma forma de deixar a pessoa hipnotizada. E tem um monte de papo furado que você ouve a toda hora que ajuda a deixar você naquele estado,” diz Jason Beghe.

Mas naquele momento, ele estava viciado. Ele lembra de ter pensado, “deixe-me fazer essa coisa de clear,” achando que custaria algo em torno de U$ 10.000,00. Entretanto, pediram a ele U$ 50.000,00 para começar seu progresso na Ponte. “eu provavelmente tinha U$ 60.000,00, mas pechinchei.”

Ao longo do ano seguinte ele percorreu os caríssimos níveis da Scientology como ninguém mais havia percorrido. Ao longo do caminho, ele recebeu muitos tratamentos especiais. “Celebrity Centre. Minha sauna privativa. Todo mundo puxando meu saco, o que me deixava desconfortável. Mas pessoas boas. Não poderiam ser mais boas,” diz ele.

Seu caminho a ‘clear” foi tão rápido que ele foi informado que David Miscavige, líder da Scientology, o considerava “garoto propaganda” da religião.

“Eu era o garoto favorito de Miscavige, então eles faziam de tudo para me deixar feliz,” diz ele. “Eu percorri a Ponte mais rápido que qualquer pessoa na história. Eu ia 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eu me tornei clear. Cheguei a OT V. Eu fui treinado auditor.” (OT significa “operating thetan”, e o nível mais alto atualmente seria o OT VIII.)

“Eu estou mais além na ponte do que Travolta (John), e ele está lá faz mil anos. Ele não é um auditor treinado.” Para Beghe, algumas das celebridades aparentam ser superficiais, aproveitando-se dos benefícios mas não se esforçando de verdade para serem Scientology.

“Eu estava em uma jornada espiritual. Eu não estava tentando ganhar dinheiro, ou influenciar pessoas. Eu só queria experimentar aquilo.

Sua esposa também foi treinada como scientologist, e como Beghe, atingiu OT V. Ao longo de seus doze anos na igreja, Beghe estima ter dado a Scientology cerca de um milhão de dólares.

Entretanto, ele diz, apenas três anos após ter ingressado, os grandes problemas começaram. Ele havia alcançado OT IV e estava fazendo alguma audição especial, algo referido como “L Rundowns” ou “Ls”. Beghe diz que os rundowns custam de U$ 150.000,00 a U$ 160.000,00, mas o resultado prometido seria imenso: completar as séries com sucesso daria a alguém poderes sobrenaturais. “Você supostamente teria poderes para, por exemplo, tomar o poder de um país,” diz ele.

Beghe diz que outros que também estavam recebendo o treinamento foram indagados sobre o que queriam ganhar com a experiência, e alguns disseram “dez vezes o meu salário.”

“Eu não gostei daquela pergunta. Eu estava apenas experimentando.” Beghe passou por sessões que duravam o dia todo, nas quais ele era provocado com perguntas a respeito de sua ética e comportamento, enquanto segurava no “e-meter”, um aparelho cujos testes comprovadamente medem apenas o galvanismo da pele, mas que os scientologists acreditam que revela segredos profundos da mente. Beghe usou o e-meter por muitas vezes. Mas essas sessões eram um desastre para ele. Em sessões que duravam até seis horas, ele era atacado com perguntas (Há alguma preocupação? Você cometeu algum crime? Alguém quase descobriu algo que você fez?). “Mas eu não tinha nada a dizer. Eu não estava escondendo nada.” Seus auditores não estavam satisfeitos. Eles estavam esperando uma uma “floating needle” no e-meter para mostrar que ele estava no estado certo da mente, mas a agulha não atendia.

“Eu estava sentado lá por horas, ao custo de U$ 1.000,00 a hora. Isso durou semanas,” ele diz. E custa caro assim porque “Ls” requerem um auditor “classe 12”.

“Um auditor class 12 tem mais treinamento que um cirurgião de cérebro. Eles são a nata. Eles são os únicos que podem entregar os Ls. E eles estavam cometendo os maiores erros,” ele diz.

Beghe diz que a prova de que a Scientology não estava mais funcionando com ele ocorreu quando ele quase morreu em um acidente de carro. Após o Ls, ressalta ele, aquilo não deveria acontecer. “Um clear não pode sofrer um acidente de carro, ele deve ser praticamente imortal.”

Para os scientologists, o acidente era uma indicação de que alguém o estava “suprimindo”. Então eles o convocaram para mais um interrogatório.

“E esse gay que é seu amigo,” um executivo perguntou, implicando que de alguma forma o amigo gay de Beghe estava sabotando seu estado clear. Quando Beghe retrucou, o executivo respondeu, “bem, ele é gay.”

Seu treinamento, enquanto isso, continuava indo de mal a pior. O próximo passo, OT V, foi terrível. “OT V deveria levar de 3 a 5 semanas, mas para mim demorou de três a cinco anos.”

Não apenas as sessões de audição estavam oprimindo Beghe. Esperavam também que ele ficasse quieto a respeito de seus problemas, e ainda fazer aparições em eventos da Scientology para manter a mentira de que ele estava indo bem.

“Meu papel era de uma celebridade e scientologist modelo… eu não poderia andar por aí parecendo culpado. Eu era obrigado a ir a um monte de eventos. ‘Ei, Jason!’ Eu nem conhecia aquelas pessoas, e eles estavam sempre me seguindo.”

Cortejar celebridades é uma das características conhecidas da Scientology, mas Beghe diz que isso não é apenas uma manobra de relações públicas. Hubbard deixou claro que uma das formas de uma pessoa limpar seu “arquivo ético” – registros de erros que os paroquianos admitem em uma sessão de audição – era recrutar uma celebridade. Traga uma estrela e todos os seus crimes serão perdoados. Assim o cuidado e busca de celebridades está sempre na mente de todos os scientologists.

Beghe alega que a estrela principal da religião, Tom Cruise, estava de fato separado da igreja por muitos anos. Outra celebridades, ele aponta, passam por períodos similares sem audição ou mover-se pela Ponte, mas ainda assim são considerados membros. Trazer Cruise de volta em um papel mais ativo, diz Beghe, era um dos maiores projetos de Miscavige.

“Ele esteve fora por cerca de dez anos. Há pessoas que não estão fazendo nada. Algumas estão fora mas não falam sobre isso. Por que? A igreja é assustadora. Eles são uns malvados filhos da puta.”

Quando seu desapontamento tornou-se tão grande que ele começou a falar sobre abandonar, Beghe diz que a igreja mandou pessoas para o convencerem do contrário.

“Gente importante pra caralho. De um lado estava David Petit, cabeça do Celebrity Centre International. Eu conheço ele há muito tempo,” diz ele. “Ele me disse: ‘se você quiser, eu te faço presidente de qualquer Celebrity Centre, em qualquer lugar do mundo.'”

“Esse foi um sinal do respeito que tinham por mim. Petit não faria uma oferta como aquela a menos que David (Miscavige) soubesse.”

Agora que ele e sua esposa estão finalmente fora, Beghe diz que ele quer que o mundo saiba o quanto a Scientology é anti-ética e desonesta.

“Todas as sessões de audição – que deveriam ser privativas – são gravadas em vídeo,” ele diz, e alega que câmeras secretas são usadas em todas as sessões no Celebrity Centre em Los Angeles, gravando sessões que para os scientologists são como se fossem o confessionário da Igreja Católiga.

“Will Smith está supostamente iniciando na Scientology. Deixe ele saber que suas cagadas foram gravadas. E diga a ele para olhar nos olhos deles e ver se acredita quando eles negarem.”

Pior ainda, diz ele, que por trás das costas das celebridades, os executivos da Scientology fofocam sobre o que transpira das sessões supostamente privadas. “Tudo supostamente deveria ser confidencial. Mas tudo o que eles fazem é conversar sobre o que foi dito na audição,” diz ele.

Em um centro da igreja em Hemet, Californa, onde a igreja tem seus estúdios de gravação, Beghe ajudou a fazer vídeos. “Eu fiz vídeos para eles. Eu lembro de ter perguntado quem deveríamos chamar para participar, e ao me referir a outro ator scientologist, disseram que não, porque aquele outro ator estava traindo sua esposa.”, diz Beghe.

“É apenas uma fábrica de fofocas. E eu não estou falando dos auditores. Está em todos os lugares. As celebridades não sabem que seus problemas particulares são fofocados por empregados da Scientology.”

Beghe diz que também está motivado pelas não-celebridades que estão passando pela igreja de Hubbard.

“Sendo uma celebridade, eu recebi os melhores auditores, supervisores de casos, as pessoas mais bem treinadas. E eles me foderam desse jeito – e eles admitem terem feito isso – mas e quanto aquele pobre coitado da org de Orange County? Eles não sabem o que estão fazendo. Certamente não estão entregando o que é prometido.:

Está ele preocupado com o que pode acontecer com sua carreira agora que está indo a público com sua história?

“Provavelmente não farei nenhum filme da United Artists tão logo,” ele ri, referindo-se ao estúdio de Tom Cruise. Mas de qualquer forma, ele não sabe ao certo como a publicidade irá afetar sua carreira. Após o cancelamento de Cane (seriado), ele está aguardando a resposta de outro acordo do qual não pode comentar ainda. Mas por enquanto, ele está recebendo convites de talk shows.

“Eu não quero ficar amargurado, e nem quero magoar ninguém,” ele diz. Mas ele está determinado a ajudar os outros contando a eles o que aprendeu.

“Scientology te induz a pensar que é um processo pelo qual você pode realmente tornar-se você mesmo. Mas ultimamente, ela apenas torna você um scientologist – uma versão de você mesmo com lavagem cerebral.”

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