Três meses com a Cientologia

Clique AQUI para abrir o índice dos posts mais importantes a respeito da organização criminosa autodenominada religião (O que é Cientologia, Dianética, Quem foi seu fundador L. Ron Hubbard, O Grande Segredo da Cientologia)

Esta matéria foi publicada em 1997, na edição n. 1303 do jornal português Expresso, com o título “Diário de Um Crente”. e postado no website Alarme Cientologia, que infelizmente foi fechado.

É a jornada alucinante de um jornalista português, que já havia morado em Los Angeles, aos meandros da IPC (Igreja Portuguesa da Cientologia), tendo convivido com os membros do “staff” por cerca de três meses, chegando a ser convidado para um alto posto da “org” local.

“DIÁRIO DE UM «CRENTE»

A cientologia anuncia-se como «a religião das religiões». Apesar do sucesso crescente da igreja, em grande parte devido à adesão de vedetas do cinema americano como Tom Cruise e John Travolta, as suas actividades continuam envoltas em denso mistério. Um jornalista português juntou-se durante três meses aos cientologistas de Lisboa e fez descobertas surpreendentes. Aqui fica o relato, em forma de diário, de uma experiência alucinante.

5 de Abril de 1997

TAL como em Los Angeles em 1984, eles acabariam por me assediar. Teria apenas de esperar uns segundos junto à montra onde se empilhavam os livros de L. Ron Hubbard, no 91B da Rua do Conde de Redondo, em Lisboa. «Conhece cientologia?», perguntou-me Teresa. Respondi que já ouvira falar e fui convidado a efectuar um teste, através do qual iria saber em que estado se encontrava a minha saúde mental. O resultado não foi mau de todo, «mas existiam alguns altos e baixos na minha vida e era um indivíduo nervoso».. O diagnóstico fora efectuado através de um programa de computador e demorara seis minutos e poucos segundos. De uma forma rápida, entremeada com citações de L. Ron Hubbard, sugeriram-me em tom quase impositivo que efectuasse três «cursos» (nota: lembram-se da reportagem da Folha de São Paulo?): Sucesso Através da Comunicação, Altos e Baixos da Vida e Integridade e Valores Pessoais. Para obter descontos teria de me fazer membro da igreja. Pactuei: dois cursos, oito mil escudos e mais um conto de réis para o «membership». Escolhi o primeiro e o último e após muita insistência começaria no dia seguinte. Aceite. Entre tudo de que se falou, a palavra «deus» nunca foi referida. Para uma religião, pareceu-me estranho…

6 de Abril

OS ENSINAMENTOS de Integridade e Valores Pessoais não vão além daquilo que se aprende em família ou na catequese de qualquer religião, incluindo mesmo algumas infantilidades, como a distinção entre o bem e o mal ou o que fazer quando se observa algum crime. «Adorei» a teoria de que o criminoso deixa sempre uma pista no local do crime porque no seu subconsciente deseja ser capturado… A monitora, Joana, é tesa! Insiste em que os exercícios sejam repetidos até ao entendimento perfeito. Tudo fácil, mas tenho de provar, exemplificando com objectos (tipo Lego), que percebi. Acabo o dia exausto e sinto-me humilhado. é a primeira prova de fogo. Ao sair de cada sessão, há sempre alguém a cumprimentar-me e a tentar vender-me alguns dos livros de cientologia ou dianética, porque quanto mais estudar sobre o tema mais depressa «subirei na ponte». Vou devagar… cedendo aqui e além. Preciso de saber até onde posso ou devo ir.

11 de Abril

ACABARAM-SE as humilhações e começamos a falar de coisas de adultos. Os actos hostis e as ocultações são o passo seguinte e, sem aprender nada, apercebo-me de que se não me cuidar ainda mudo de vocabulário. A linguagem é-me, por vezes, estranha e, sobretudo, repetitiva. Comecei a odiar a palavra «manejar». É tão usada como o pão. Entrei nas «dinâmicas da existência». São oito e definem-mas como «as forças motivadoras para a sobrevivência». Vão do Eu ao Infinito. Chamou-me a atenção o facto de a segunda dinâmica não ser definida como o casamento mas sim a divisão em dois compartimentos: o sexo e a procriação, separadamente. Hoje, comecei a entender que quando tiver qualquer dúvida de ordem filosófica não devo discutir o assunto com insistência, porque isso dá início ao processo de repressão e o castigo é simples e prático: repetir vezes sem conta as teorias de Hubbard ou abandonar o edifício para sempre. Vou ter de moderar os meus comentários e dúvidas.

16 de Abril

JÁ TERMINEI as dinâmicas e sinto que começam a confiar em mim, porque o diálogo, nos intervalos de 15 minutos que se seguem a cada duas horas de trabalho, é mais fluente. Teresa está completamente fanatizada. Todas às vezes que nos cruzamos pergunta se estou a ter «ganhos» e atira-me com citações de LRH, porque ele «tem a resposta para todos os problemas da vida». Atrevo-me finalmente a perguntar qual é o deus pelo qual se rege a cientologia e a resposta foi mais uma citação: «A verdade é aquilo que tu acreditas que é verdade», por isso cada um tem o deus que quer, porque a cientologia é a religião das religiões. Eu sabia que não devia insistir, mas, mais do que isso, fico em definitivo com a idéia de que a Igreja Portuguesa de Cientologia é apenas o tentáculo de uma multinacional que vende livros, cassetes de áudio e de vídeo e presta serviços. O Governo português é um dos poucos que aceitam a cientologia, dando-lhe o estatuto de igreja. Esta organização livra-se, assim, de pagar impostos. O que mais me desperta a curiosidade é o fanatismo exacerbado e a organização hierárquica quase perfeita. Nada é discutível em cientologia.

17 de Abril

TERMINEI hoje o «curso» de Integridade e Valores Pessoais. Depois de «ter aprendido» o que eram os actos hostis e ocultações, faltava-me um último passo para receber o «diploma»: escrever os crimes ou pecados que pudesse ter cometido ao longo da minha vida. Foram-me fornecidas seis folhas A4, mas apenas entreguei uma. A Joana leu, olhou-me com firmeza e exigiu-me que escrevesse mais. De facto, para a minha idade, nem um santo estaria tão bem de consciência! Enchi as restantes cinco páginas com pecados inventados e entreguei. Pediu-me para assinar, garantindo-me que aos papéis apenas teriam acesso ela e, se assim o entendesse, o director executivo, um espanhol de nome Mendez. Mais tarde, descobri que isso não era verdade. Também os auditores e o (a) oficial de ética têm acesso a esses documentos, que são, em rigor, uma prisão psicológica. Mesmo mentindo, as confissões têm de ser verosímeis.

Às nove e meia da noite decorreu a cerimónia de «graduação». Entrega do diploma na presença de uma dúzia de pessoas e o convite a algumas palavras. Não é muito fácil falar para um grupo de fanáticos nas minhas circunstâncias. Optei pelo mais fácil e, usando a sua linguagem, afirmei em tom firme ter obtido muitos «ganhos» com o trabalho que havia efectuado. Os aplausos irromperam na sala e todos os presentes, para além das felicitações, quiseram saber o que iria fazer a seguir.

19 de Abril

INICIEI o «curso» Sucesso Através da Comunicação. Uma autêntica tortura! O primeiro passo prático consiste em ficar sentado frente a um indivíduo desconhecido com o qual não posso trocar uma única palavra. Durante duas horas consecutivas tenho de permanecer sentado numa cadeira num perfeito ângulo de 45 graus, as pernas ligeiramente afastadas, as mãos sobre os joelhos e os olhos fechados. A ideia é a de que eu consiga permanecer tão quieto que nem um único músculo do meu corpo se movimente. Apenas me é permitido respirar. Ao mais pequeno movimento são-me ditas palavras em tom robótico: «Falha!… Recomeçar!»Tento controlar os meus tiques e isso não é nada fácil. A disciplina é espartana e o corpo começa a doer.

22 de Abril

O SUPLÍCIO durou três dias, a uma média de quatro horas/dia com um intervalo de 15 minutos. O relógio da sala está atrasado dois minutos. Finalmente, fui considerado apto para o exercício seguinte: a posição na cadeira é a mesma, a do indivíduo também. Só que agora tenho de estar com os olhos abertos a confrontar os de outra pessoa. O horário permanece igual. A violentação é tão dolorosa que começo a irritar-me. Mas tenho de continuar. Primeiro colocam-me à frente a C…, uma criança de nove anos que rapidamente fica com os olhos marejados e a arder até à vermelhidão. Obrigaram-na a efectuar o exercício durante mais de meia hora. A seguir terei de confrontar a D…, uma adolescente de 12 ou 13 anos. Chorou que se fartou e pareceu-me incomodada, pois não parava de se mexer e desviar os olhos sempre que a monitora voltava as costas. é expressamente proibido falar. Aliás, qualquer pessoa que entre na sala não pode falar sem primeiro pedir autorização à monitora. Saí cansado e com pouca vontade de voltar. Hoje, mais do que nunca. Nem imaginava o que estava à minha espera…

23 de Abril

CHEGARAM duas mulheres espanholas, com fardas que pareciam da marinha. Uma delas parece inofensiva, mas a outra, Tânia, cuidado! Fala num tom que não admite a mínima réplica e, acabadas de chegar, parecem dominar toda a situação. Todos prestam vassalagem a Tânia, o que presumo que se deva aos três galões que ostenta. é uma figura verdadeiramente sinistra. Quem será? Já me habituei a não fazer perguntas, mas no restaurante ouço alguém dizer que elas estão ali para impulsionar a ORG (é assim que chamam à «igreja»), que atravessa algumas dificuldades. E não consigo saber mais do que isso.

Prosseguem as classes de «vista triste», como lhes chamo. Pela primeira vez vou ter de confrontar olhares com um adulto. Sempre ríspidos. «Falha!… Recomeçar!» «Falha!… Recomeçar!»

Eles fazem turnos, eu tenho de os aguentar a todos. Já percebi! O que se segue é sempre mais duro do que o anterior. O único gozo que consigo obter e me distrai é que ao fim de 15 ou 20 minutos já estão a pestanejar e com os olhos vermelhos e lacrimejantes. Aprendi a defender-me olhando-os ora na vista esquerda ora na direita. Eles até agora têm resistido menos do que eu. Sem excepção.

24 de Abril

CONFESSO-ME cansado. «Isso passa» é a melhor resposta que obtenho. Porém, os exemplares bem treinados que me têm colocado à frente vão-se abaixo primeiro do que eu!

Hoje mandaram-me o Tony. O confronto (é disso que se trata) é difícil, até porque ele não mantém a distância regulamentar, que é de um metro, e aproxima-se até pouco mais de meio metro. Tem os olhos completamente esbugalhados e como chispam! Parece-me ver algum ódio… Ele aguenta e eu também. Durante duas horas consecutivas não se ouve, nem uma única vez, as palavras «falha!… recomeçar». Duas horas sem sequer pestanejar! Passei o teste. Perdi dois quilos e meio. O que será que se segue?

Quando abandonava a ORG senti algum orgulho, mas só pensava num bom duche. Fui interpelado pela oficial de ética, Sara, que me convidou para jantar com ela amanhã. Aceitei. O que será que quer de mim? Amanhã (sexta-feira) se verá.

25 de Abril

OS TESTES que se seguem no «curso» de Sucesso Através da Comunicação não se tornaram mais fáceis. Entramos na fase de diálogo. Tenho de, confrontando vários indivíduos, convencê-los a falar comigo, nunca mudarem o assunto e não abandonarem o diálogo enquanto eu assim o desejar. Eu estava a ser treinado para cientologista, ou seja, um vendedor dos produtos e serviços da Igreja Portuguesa de Cientologia. Essa dedução tornou-se mais fácil após o convite para fazer parte do pessoal. Justifiquei-me com o trabalho, mas não pude deixar de participar, aos domingos, no chamado «Novo Futuro sem Drogas», uma campanha idealizada por Elisa e que tinha lugar no Parque da Serafina. Era (ao que sei) o único método utilizado pela Igreja Portuguesa de Cientologia para recrutar crianças e adolescentes. Os participantes (e não eram poucos) prestavam juramento em que se comprometiam a jamais utilizar drogas e preenchiam um impresso com o nome e morada, o mais importante da sessão.

Fui jantar com a Sara. Falou-me de cientologia, é claro! Esta mulher é inofensiva, acreditei. À primeira vista muito competente, é o único membro do «staff» que não acredita no que faz. Tem uma enorme necessidade de afirmação e de provar que está por dentro de tudo. Foi por ela que soube que a IPC tinha grandes problemas económicos, que a renda do edifício era de 700 contos mensais e que já havia muito tempo que não pagavam, pelo que havia uma acção de despejo.

Julguei que estava a «atirar verdes para colher maduras» e fui muito cauteloso. Mas a verdade é que a mulher era mesmo uma delatora e fiquei seguro disso quando me mostrou vários impressos que constituíam um inquérito que a haviam mandado preencher para oficializar a sua situação como parte do pessoal.

O inquérito perfeito! A pergunta que faltava era sobre a cor favorita de «lingerie». O resto estava tudo lá e duvido de que a Inquisição fizesse melhor. Duas questões chamaram a minha atenção: «Faz ou fez no passado parte dos serviços secretos de algum país?; tem algum familiar ou amigo que faça parte ou tenha pertencido aos serviços secretos de algum país?» A questão é repetida apenas com a alteração de serviços secretos para jornalista. Uma boa prenda de aniversário, para além dos telefonemas de familiares.

27 de Abril

HOJE é domingo, mas em cientologia trabalha-se os sete dias da semana. Os diálogos agora são efectuados através dos números. O que conta é a entoação que se dá a cada palavra. Utilizando números de forma aleatória constroem-se diálogos e, através do tom, tenho de entender se me estão a perguntar, responder, perceber ou até mesmo insultar. Também este exercício assume contornos de violência e não entendo a sua utilidade. Parece-me que o João embicou comigo, porque não me dá tréguas. E, como é habitual, mantém-se o confronto de olhos e a alternância dos instrutores. Já ando nisto há quatro dias e ainda não acabou. Sentem-se todos muito orgulhosos do seu trabalho.

2 de Maio

ESTOU prestes a terminar Sucesso Através da Comunicação e o cerco já começou, pois tentam vender-me novos «cursos» e livros todos os dias. Estudar cientologia sai mais caro do que frequentar uma universidade. Claro que posso ganhar dinheiro e para membro do «staff» não faltam os convites.

A minha missão não é vender cientologia, mas sim entendê-la na sua vertente prática. Todos os dias à noite leio os livros de LRH, quer de cientologia quer de dianética. Quero entender esta «ciência» e chego a acreditar que o seu mentor é um psiquiatra ou psicólogo falhado. O homem não inventou nada, não descobriu nada. Toda a sua literatura é simples, elementar, instintiva. Qualquer ser humano de inteligência mediana sabe o que ele «ensina». Tem de haver qualquer propósito por detrás disto… E volto à estaca um: a cientologia é apenas um negócio bem montado, à sombra de uma série de textos que dizem e repetem as palavras que a nossa sociedade sabe de cor e salteado.

4 de Maio

NESTA altura já descobri que cientologia constitui um perigo. O regime interno é totalitário, usa a repressão e é opressivo. Tudo isto é contra a Constituição portuguesa.

Não tenho quaisquer dúvidas sobre a fraude que é apelidar de igreja este negócio milionário. O que me falta saber é o que se faz dentro das portas proibidas onde se efectuam as audições.

5 de Maio

COMEÇAM a colocar-se cartazes para o filme a exibir a 10 de Maio e que apenas tem destaque para o subtítulo: «O filme que os psiquiatras nos imploraram para não fazermos.» Lendo LRH, conhecia o desprezo que este sempre devotou aos psiquiatras, mas daí a este ponto pareceu-me um exagero. Tomei então a decisão mais difícil: vou comprar dois «intensivos» de audição. A esta altura comecei a sentir que tinha de entrar nas salas proibidas. Não sei quanto tempo mais vou aguentar aqui, por isso tenho de aproveitar ao máximo enquanto consigo suportar isto.

Os «intensivos» de audição em cientologia custam uma autêntica fortuna: o «package» mais barato custa, para os membros da IPC, 260 contos. E isto, disse-me Mendez, dá apenas para criar uma situação em que o indivíduo comece a integrar-se. é a fase inicial, sendo precisos depois muitos mais «intensivos» até que o indivíduo chegue a «clear», isto é, uma pessoa sem engramas. O cientologista perfeito.

Bingo! A cientologia realiza lavagens ao cérebro? Chegou um açoriano da ilha Terceira. Foi auditado e deixou de precisar de usar óculos, apesar de o oftalmologista lhe ter diagnosticado três dioptrias há 15 anos. Será que o Manuel está mesmo a ver melhor? Ou tudo isto não passa de sugestão? Tem de usar óculos de sol porque sente a falta de peso no nariz. Não seria mais fácil resolver esse pormenor do que retirar-lhe as dioptrias? O homem estava verdadeiramente eufórico… mas será que via mesmo bem? Também havia deixado de fumar pelo mesmo método e cravou-me três cigarros em menos de uma hora!

8 de Maio

TERMINEI hoje o exaustivo «curso» de Sucesso Através da Comunicação. Não o aconselho a ninguém que esteja no seu perfeito juízo. Continuo a estudar as teorias de LRH e cada vez me convenço mais de que só submetendo-me à audição vou poder descobrir que raio de curas propaga a cientologia que possam ser menos do que uma lavagem ao cérebro. As minhas dúvidas fortalecem-se sempre que leio notícias da Alemanha. Se isto é mesmo o que parece, porque é que os serviços secretos daquele país procedem a vigilâncias, criam na Baviera uma linha para socorrer as chamadas vítimas da cientologia, mas não encerram as organizações locais, que, tal como a Espanha, Israel, México, Venezuela, Bélgica, áustria, entre muitos outros países, aceitam invocando o estado democrático mas não acedem a dar-lhes o estatuto de igreja, o que os inibiria de pagar impostos?

Um diplomata alemão perguntou-me um dia por que razão John Travolta aderira à cientologia e eu respondi-lhe apenas que, provavelmente, pela mesma razão que todas as outras pessoas. Ele, afinal, era apenas um ser humano como qualquer outro…

Já tinha lido o suficiente sobre a audição para poder visualizar como seria. De certo modo tinha algum receio, sobretudo temia que descobrissem o que, na realidade, eu pretendia da IPC. Acontece que não era um PC (pré-«clear») comum em busca de uma cura milagrosa, mas sim um repórter à procura da verdade e, se possível, de factos que provassem a minha teoria de que a cientologia não era uma religião – isso já estava mais do que provado -, e um mês depois de lá estar tinha o pressentimento de me encontrar no seio de uma associação criminosa, mais que não fosse pelo crime de fraude. Mas eu pressentia que havia muito mais do que isso.

10 de Maio

MUITA gente esteve hoje na ORG para assistir ao filme que «os psiquiatras nos imploraram para não fazermos». Casa cheia para assistir, primeiro e inesperadamente, a um vídeo «made in USA» com uma enorme palestra sobre os sucessos alcançados pela cientologia, na voz dos cientólogos. Mais de uma hora! Finalmente, o esperado filme.

Do primeiro ao último minuto, a película tenta provar que os psiquiatras representam todos os males do mundo. Desde a Idade da Pedra. Nada para admirar, depois de ter lido o que LRH escreveu: «A psiquiatria está a tornar as pessoas insanas.» Ninguém conhecido do grande público esteve presente. A fúria dos cientologistas contra a psiquiatria teria sido melhor servida se os últimos minutos do filme não tivessem sido aproveitados para tentar descaradamente vender os produtos da casa. A sessão encerrou com um «cocktail» e a venda de alguns livros e serviços.

11 de Maio

ESTOU inscrito para a audição. A IPC vende sempre a pronto e pré-pagamento. Os primeiros conselhos: dormir pelo menos oito horas por dia, alimentar-se bem e tomar diariamente 300 mg de vitamina B1, que poderia adquirir numa loja de produtos naturais no Rossio, ou então uma dose certa de vitaminas, a mais adequada, proveniente dos EUA, que a Bárbara se encarregaria de obter. O preço: seis contos e duzentos. Aceitei a última proposta e perguntei-me: contrabando também? Nem mais…

Uma Nova Perspectiva de Vida foi o livro que me venderam hoje. Começo a duvidar de que o seu autor seja LRH. As teorias são sempre as mesmas, todos os livros são a repetição uns dos outros, mas os textos são diferentes. Porém, a este livro em particular, nas suas quase 300 páginas, falta o entusiasmo tradicional do mentor da cientologia, além de ser demasiado tecnicista.

12 de Maio

FINALMENTE entrei na zona mais protegida da ORG. O auditor apresenta-se com uma pontualidade cronometrada. O seu nome é Vital Silva e é ele quem vai tratar-me da saúde mental. No seu currículo profissional apenas uma experiência de trabalho: taxista. Auditava na ORG e também em casa com uma autorização da IPC.

Segundo ele, eu iria necessitar de muitas horas de audição. Dividimos por uma média de duas horas/dia, embora por várias vezes tenhamos ultrapassado o tempo previsto.

«Vamos a isso?»

Chegara a hora de entrar nas «catacumbas» da Igreja Portuguesa de Cientologia. Vital Silva é o tipo de homem que se pode apelidar de um «gajo porreiro». Adora dominar as mentes e deseja ardentemente subir na «ponte», ser «clear» e fazer com que toda a gente seja «clear». A expressão «clonagem mental» surgiu-me pela primeira vez.

«Sente-se confortavelmente e quando estiver pronto diga-me» – e ia cortando ao meio várias folhas de papel A4, que colocou num «dossier» aberto. «Está pronto?» Respondi que sim. «Vou contar até sete e nesse espaço de tempo você fecha os olhos. Quando terminar a sessão, eu conto até cinco, dou um estalido com os dedos e você volta a ‘tempo presente’, entendeu?» «Entendi.»

Fechei os olhos à contagem de quatro. Ele contou até sete e depois apagou uma das duas lâmpadas que existiam no cubículo de aproximadamente dois metros por um metro e meio. Ele sentava-se de costas para a porta. As luzes, ambas indirectas, ficam uma à altura dos meus olhos, na parede à minha esquerda, e a outra no tecto. Vai começar a sessão e estou bastante tenso.

«Pense num incidente qualquer que lhe tenha acontecido recentemente… Seja o que for… procure lembrar-se de qualquer acontecimento que o tenha magoado… qualquer coisa recente…» E fica à espera. Rapidamente refiro um caso de acidente de viação. Ele quer os pormenores todos: «O que está a fazer neste momento?» «Qual a cor do carro que vem na sua direcção?» «Quando é que se apercebe de que vai embater?» «Qual a marca do carro?» «Quem é que conduz o outro carro?» «O que é que você sente no momento do embate?»

O questionário é longo e de vez em quando as perguntas repetem-se. Ouço permanentemente a ponta do lápis a raspar o papel. Ele vai tomando as notas. A certo ponto insiste: «O que é que você sente no momento do embate?» Tento descrever o medo. «Sente dores?» – as perguntas são sempre feitas como se o acidente se estivesse a repetir vezes sem conta «naquele mesmo momento». Enquanto resisto à sonolência, tento nunca esquecer o que acabo de dizer, porque vou ter de o repetir até ele se fartar. Como a ideia é fazer com que esse acontecimento deixe de me provocar emoções, vou condescendendo de forma lenta, até o convencer de que aquele «engrama» está a «sarar». Tenho a camisola colada ao corpo, de tanto suar.

é com grande alívio que o oiço dizer: «Henrique, vou contar até cinco e quando der um estalido com os dedos você volta a ‘tempo presente’, bem-disposto, e esquece tudo o que falámos.» Cumpro à risca com o procedimento. Mal acabo de abrir os olhos ele pergunta-me «que dia é hoje?» e «sabe onde é que está?» Respondo.

Vital deve ter notado qualquer coisa. Diz-me que vai ser mais fácil com o tempo e que o meu cansaço é normal, mas avisa-me para que não deixe de tomar as vitaminas.

15 de Maio

ACABOU-SE o jogo do gato e do rato. Até agora tenho conseguido fintar o meu auditor, mas a verdade é que os incidentes que invento acabam por não adiantar nada. Trago a lição estudada até ao mais pequeno pormenor e por isso não consigo descobrir se a audição resulta. Decido deixar levar-me desta vez. Há um incidente que me marcou tão profundamente que ainda hoje sinto grande emoção ao relembrá-lo. Vou arriscar, apesar de se tratar de algo muito íntimo. Tenho de saber se isto funciona e sinto que estou a perder tempo se continuar a mentir.

O tom é lacónico: «Um, dois, três, quatro…» Fecho os olhos e ouço o interruptor por duas vezes. Ou apagou as duas lâmpadas ou simulou, accionando o interruptor por duas vezes e mantendo tudo na mesma. Este «jogo» já acontecera antes.

«Vá para o primeiro incidente de que se recorde.»

Recuo no tempo, até 1984, mas começo a ter dificuldades.

«Onde é que está?», pergunta. E insiste.

«Estou a ver a minha casa em Los Baños, na Califórnia.»

«Viaje até esse momento e viva-o no presente. Portanto, fale como se tudo estivesse a acontecer agora.»

«Estou na sala com a minha ex-mulher…»

«Quer dizer, mulher.»

«Não, ex-mulher.»

«Então você já está divorciado nesse momento…?»

«Já.»

«O que é que estão a fazer?»

«Estamos sentados a falar.»

«E dizem o quê?»

«…»

«E dizem o quê?»… «E dizem o quê?»… «E dizem o quê?»

O que recordo desta sessão posso resumir a algumas palavras de ordem: «Olhe para a fechadura!» «Os carros vão ao lado um do outro?» «Volte para a estrada e vá até ao momento em que olha para ela!» «Qual é a cor do casaco? Volte ao momento em que vocês se abraçam!»

Aquelas duas horas e meia de audição são um «black-out» completo. Quando volto a tempo presente estou a soluçar e as lágrimas descem-me pelo rosto, quentes e salgadas. Sinto vergonha de sair, mas Vital empurra-me para fora do quarto com palmadinhas nas costas. Pelos olhares felizes que Teresa e Dulce trocam com Vital, percebo que estou a ser exibido. O homem conseguira um excelente troféu.

Saio da IPC constrangido e confuso. Sigo imediatamente para casa. Tudo aquilo que pretendia contar naquele dia, em relação ao incidente, havia-o escrito com pormenor na noite anterior, com a finalidade de saber se ficaria esquecido ou não.

Leio o texto e fico a saber duas coisas: não havia esquecido nada, porém, ao ler as cinco páginas que revelam alguns dos momentos mais sofridos da minha vida e que sempre me comoveram, continuo sereno, impávido, como se fosse um estranho naquela história. O que até agora me emocionava, e muito, deixava-me, em absoluto, indiferente. A cientologia está em dívida para comigo. Quero as minhas emoções de volta.

Esta «obra» foi efectuada por um ex-taxista… que obteve o «curso» de auditor em duas semanas. Imagine-se o que os auditores profissionais, que proliferam sobretudo na Inglaterra, Estados Unidos da América, Dinamarca, Alemanha e Espanha, não andarão a fazer!

Não tenho a mínima ideia sobre os riscos que corri, mas já decidi não deixar que isto volte a acontecer. Uma dor de cabeça começa a atormentar-me e tomo duas aspirinas. Recordo uma conversa do espanhol Mendez, que dirige a IPC: «Os cientologistas são o Exército de Salvação da Humanidade».

O que os cientologistas pretendem, acredito, é criar uma raça única, que, não olhando a cor ou credo, seja constituída por «clears», pessoas sem emoções e sem passado, das quais a cabeça do polvo possa dispor para qualquer tarefa. Se o mundo não abrir os olhos e der mais atenção a esta gente, os perigos são inimagináveis. Há qualquer coisa de maquiavélico nesta «ciência» (ainda vou ter que retirar as aspas à palavra).

Aquilo a que eu chamo a «cabeça do polvo» só pode estar em um de quatro lugares: Londres, Copenhaga, Los Angeles (que são os centros nevrálgicos da cientologia) ou, mais provavelmente, no paquete «Freewinds», em permanentes viagens pelas Caraíbas. Qual será a verdadeira razão que leva o «Freewinds» a nunca abandonar a mesma zona? Isto pode ser muito mais do que um «simples» negócio milionário…

16 de Maio

A DOR de cabeça ainda não passou e tomo mais duas aspirinas antes do almoço. Quando chego à IPC perguntam-me, como é hábito, se estou bem e comento que nem com aspirinas me consigo livrar da dor de cabeça. Dulce levanta-se de rompante: «Você tomou aspirinas?» – e chama (grita) pela Teresa, que corre apressadamente. «O Henrique tomou aspirinas!» Por momentos gera-se alguma confusão e várias pessoas me rodeiam. Quase entro em pânico.

«Então você tomou uma aspirina? Não pode ser auditado!»

E Vital Silva, que entretanto tinha chegado, depois de fazer contas informa-me de que não «vamos trabalhar» durante cinco dias. «Imagine você que havia tomado, por exemplo, um Valium… seria impossível ser auditado por um mês… Eu nem conseguiria entrar na sua mente!»

Não me deixaram sair sem antes receber uma explicação: da próxima vez que tiver dor de cabeça devo tratar-me apenas com medicamentos naturais ou esperar que a dor passe. Durante os dias em que não devo ser auditado dizem-me que posso continuar a treinar outros estudantes nos cursos em que já fui treinado. Não querem que eu permaneça os cinco dias sem comparecer na ORG. Vou aproveitar para estudar mais os livros que fui adquirindo.

Este escrito de Hubbard chama-me a atenção: segundo LRH, o auditor deve realizar o seu trabalho em qualquer circunstância, mesmo sabendo que pode provocar no paciente «dores de cabeça, vários sofrimentos e dores e até doenças físicas ligeiras, mesmo quando a audição é feita cuidadosamente…» (Dianética, a Ciência Moderna da Saúde Mental, por L. Ron Hubbard, págs. 235/236).

é isto que é ensinado e praticado na Igreja Portuguesa de Cientologia… Pergunto-me se o Ministério da Saúde ou simplesmente qualquer médico estão a par do que se está a passar no centro de Lisboa e o que pensariam disto se o soubessem.

20 de Maio

O E-METER parece um inofensivo instrumento de trabalho para os auditores de cientologia, mas é muito mais do que isso. A sua origem ou invenção é imputada a LRH mas funciona como um detector de mentiras e a IPC utiliza-a sempre que tem dúvidas sobre a actuação de algum membro do «staff» ou cliente. Os cientologistas temem duas classes em especial: as polícias (em especial, as secretas) e os jornalistas, não necessariamente por esta ordem.

O mostrador da máquina tem um ponteiro que regista a mais pequena alteração no sistema nervoso do auditado, que se liga ao instrumento por duas peças metálicas através das quais passa uma corrente eléctrica com uma alegada descarga de 1,5 watts, mas que pode ser aumentada consoante a resistência do auditado, isto é, a vítima. Como o auditado toma os instrumentos pelas suas próprias mãos, a IPC poderá sempre alegar não o ter obrigado a nada. Porém, uma vez começada a sessão, o cidadão fica totalmente dominado pelo auditor, através de um interrogatório que não tem nada de subtil.

O E-Meter é o grande suporte do auditor. Enquanto este questiona o indivíduo, o ponteiro vai registando as emoções e permite que em interrogatórios sucessivos, repetindo as mesmas perguntas durante horas a fio, se descubra se e quando o auditado está a mentir ou a fugir a qualquer questão. Compete ao auditor encaminhar o interrogatório até cumprir a sua missão final: limpar o «paciente» de todos os engramas – um ser sem passado sentido, sem quaisquer emoções no concernente à sua vida passada. Finalmente, mais um «clear» para cumprir o sonho de L. Ron Hubbard, que alertou sempre os auditores: «Não tirem, nem por um segundo sequer, os olhos do ponteiro do E-Meter, porque esse será sempre o maior erro do auditor.»

O E-Meter custa, na sua versão mais simples, cerca de um milhão de escudos e pode ser adquirido por qualquer auditor. Muitos auditam em casa com autorização da ORG e podem cobrar os preços que entenderem.

28 de Maio

VOLTEI às audições, mas agora tenho a certeza de que nem por sombras me irão dominar. Uma hora antes de cada sessão tomo um Valium e, embora tenha algumas dificuldades de concentração, deixo-me seguir pelo Vital e este inicia-me no período das grandes viagens. São «passeios» deveras fascinantes e simultaneamente ridículos. Mas começam também os horrores em forma de pesadelos.

Nesta fase, inicia-se em mim um estado de pavor. Primeiro, antes de cada audição, que tento atrasar ao máximo (e isso dá nas vistas), instala-se o medo. Depois, este é permanente e durante três dias e três noites não durmo. Quando confesso as minhas dificuldades em adormecer receitam-me Calmax, mais um produto americano que a Bárbara se encarrega de trazer.

Não arrisco tomar seja o que for, embora lhes diga o contrário e começo a convencer-me de que o pesadelo está prestes a terminar. Claro que posso simplesmente deixar de aparecer, mas o meu trabalho não vai ficar completo. E já investi tanto que não posso desistir agora. Por outro lado, se chego uns minutos mais tarde chovem os telefonemas em casa e procuram-me nos restaurantes que frequento mais amiúde. A pressão é constante.

O mais difícil é proteger-me das ordens do auditor, que começou a recuar no tempo até me ter dado a seguinte ordem: «Vá para a vagina da sua mãe!» Quando repete a ordem, é mais «gentil»: «Vá para o momento da concepção!» Estas cenas repetem-se vezes sem fim, na intenção que ele próprio explica fora das sessões: «Isto é para limpar os engramas desde o momento em que você foi feito nesta vida, para podermos, a seguir, viajar nas suas vidas anteriores.»

Mas, ainda antes, tenta levar-me ao momento em que nasço e fazer com que o meu «thetan» (espírito) assista ao parto fora do corpo. Sinto enormes dificuldades em descrever-lhe «o que vejo», em especial porque tenho de repetir inúmeras vezes o momento, mas consigo convencê-lo.

é nessa altura que ele se mostra particularmente satisfeito e promete levar o meu «thetan» até aos Estados Unidos da América para eu saber, vendo, como estão a minha ex-mulher e a minha filha. As horas de audição constituem uma tortura.

31 de Maio

HOJE, Vital Silva pretende levar-me até à minha última vida antes desta.

«Enfio-me» num comboio misturado com um grupo de tropas alemãs. O meu trabalho é carregar lenha. Invento um túnel do qual se sai numa curva à esquerda até que uma explosão faz descarrilar a locomotiva. É o momento da «minha morte na vida anterior».

A história foi bem conseguida e após o interrogatório de duas horas, que inclui todos os detalhes (visto de dentro e de fora do corpo), ele dá-se por satisfeito. Depois de «me trazer a tempo presente» faz um largo sorriso e exclama: «Seu nazi!»

Embora arriscando o imprevisto, continuo a criar histórias aos serões e a estudá-las cuidadosamente. Quando estou saturado invento uma dor de cabeça ou alego ter dormido mal e as audições começam a realizar-se em dias alternados. Por vezes, na sala ao lado ouço gemidos, soluços ou respirações ofegantes do género das que são ensinadas às mulheres antes do parto.

6 de Junho

PROSSEGUEM as viagens que vão até milhares de anos atrás. Os meus conhecimentos de história universal e o Parque Jurássico vão apoiando as minhas defesas. O «rato» vai vencendo o «gato» conforme pode.

Quando Vital se cansa de viajar tão longe no tempo procura incidentes mais recentes. Sem querer sou apanhado pela morte do meu pai e pela segunda vez sou enredado nas teias da luta para manter o meu passado intocável. A minha capacidade de resistir é maior do que antes, mas não deixo de sofrer imenso ao repetir os pormenores do funeral vezes sem conta. Mais uma sessão que acaba em lágrimas e com algum desespero. Ao chegar a casa revejo os acontecimentos e desta vez as emoções mantêm-se intactas. O Valium está a funcionar.

Pela primeira vez surge o convite para que seja membro do «staff» da IPC. Após muita insistência, digo que vou pensar no assunto. A cada dia que passa adquiro uma maior certeza de que a cientologia, quando aplicada num cidadão inocente e sem uma intenção de pesquisa como a minha, pode transformá-lo num pobre diabo sem qualquer defesa. Ele fica nas mãos da organização, como tantos outros já estão, e terá sérias dificuldades em sobreviver sem depender dos serviços caríssimos da IPC. A única saída que terá serÁ depender, também economicamente, da ORG, vendendo os seus produtos e serviços, ou seja, conquistando mais adeptos para a cientologia. E é isso mesmo que as cúpulas pretendem.

7 de Junho

SOUBE que a minha mãe adoeceu gravemente. Mantenho contacto telefónico com ela, que tem alguma dificuldade em falar devido a uma trombose. O meu estado de espírito altera-se bastante e informo que vou cancelar temporariamente as audições. «Pelo contrário!», diz-me Vital. E leva-me à sala de audições onde me informa de que o meu «thetan» vai ver exactamente qual o estado da minha mãe. «Deixo-me» conduzir e digo que sim a tudo. O que eu quero é sair dali, mas ainda antes ensinam-me como posso «curar» a minha mãe através dos «assists». Vendem-me o livro, dão-me algumas explicações e encorajam-me a aplicar esses ensinamentos.

O «assist» é um método criado por LRH e que os cientologistas devem aplicar aos doentes, com apenas uma excepção: a dor de cabeça. De resto vale tudo, desde pernas partidas a estados de coma. O princípio é o de que o «thetan» provoca 70 por cento das doenças e inibe ou atrasa a cura. Funciona por toques suaves em várias partes do corpo e tem como finalidade levar o indivíduo a retomar o contacto com a realidade, para além de retirar dores, etc.

Nas suas teorias, LRH defende que o «assist» não substitui o tratamento médico, porém deixa que seja o autor da «cura» a decidir. «Um ‘assist’, não deve interferir com o trabalho do médico. O exame e diagnóstico médicos devem ser procurados ‘quando necessários’…» (o cientologista é que decide). E, mais adiante: «é duvidoso que uma cura total possa ser conseguida apenas através de tratamento médico e é garantido que o ‘assist’ aumenta a rapidez da cura.»

13 de Junho

AS AUDIÇÕES constituem um teste permanente. Vital Silva volta a vários incidentes. Agora, ele já não me pede para escolher e vai recapitulando todo o trabalho anterior, o que exige um esforço cada vez maior para não trocar os pormenores que fazem parte do interrogatório. Um destes dias, no momento em que fechava os olhos, na contagem de sete, senti o mesmo que em 1971, quando, ao realizar uma reportagem no Estabelecimento Prisional de Angra do Heroísmo durante 24 horas, o carcereiro fechou a porta da cela. Uma sensação muito desagradável. A perca da liberdade. Notei os mesmos sintomas em outros dos auditados, mas é rigorosamente proibido contar o que se passou durante a audição e aprendo que ninguém confia em ninguém. Tenho pena deles.

Aparece um cidadão que se identifica como sendo jornalista, sem referir a empresa para a qual trabalha. Faz o teste e pergunta pelos cursos existentes. Sara confidencia-me que o homem vai à máquina (E-Meter) antes de iniciar os cursos. Mas ele não volta. Foi uma pena…

20 de Junho

QUATRO horas antes de partir para o aeroporto recebo um telefonema da oficial de ética. Diz que vai para os lados do aeroporto e pergunta se lhe posso dar boleia. Acompanha-me até ao aeroporto, acompanha-me ao «check-in» e acompanha-me à sala de embarque. Ao todo permanece ao meu lado sem arredar pé durante quase duas horas. Não pode ter sido obra do acaso. Sara faz-me ver, com insistência, a importância de utilizar os «assist» com a minha mãe. Era o que faltava!

16 de Julho

OS DIAS passados nos Açores são utilizados para ler ou rever toda a documentação que obtive sobre cientologia, desde os princípios filosóficos de LRH, que contêm uma «perfeita» mistura entre os ensinamentos do cristianismo e do budismo e que bem poderiam transformar o homem num asceta dos tempos modernos, um ser altamente disciplinado ao serviço de uma Nova Ordem Mundial, sem pátrias nem deuses, sem passado nem presente, apenas com «o olhar no infinito», sem questionar os centros nevrálgicos da cientologia, onde se vive à grande por conta deste exército cuja vontade foi cerceada pelos ensinamentos, que são, curiosamente, obtidos a peso de ouro. A cientologia apresenta-se sempre como a alternativa à psiquiatria e psicologia, considerando-se mais barata para os pacientes, aos quais nunca apelida de seguidores ou fiéis.

Um cientologista principiante, interessado e zeloso terá de gastar na primeira fase de aprendizagem, que dura entre um ano e 18 meses, qualquer coisa como seis milhões de escudos, em livros e prestação de serviços. Isto implica a presença na ORG a tempo inteiro e, se quiser ganhar algum dinheiro, terá necessariamente de recorrer à venda dos produtos de cientologia, encerrando o círculo vicioso, ou viciado.

Estes números talvez façam entender o meu amigo diplomata alemão quando se interrogava dos porquês de no seu país os cientologistas serem, na sua grande maioria, indivíduos da classe média-alta. Quanto a mim, percebo a pequenez da IPC e a sua ainda pouco notória influência na sociedade portuguesa, que, no entanto, vai crescendo, em parte por influência da Internet e por uma cada vez maior agressividade no mercado, principalmente de Lisboa e arredores. Os custos serão provavelmente uma razão a levar muito em conta. As bolsas de estudo existem em cientologia, atingindo, no seu máximo, 30 por cento dos gastos da pessoa. No entanto, a bolsa de estudo é garantida através do fornecimento de mais produtos e não de um desconto real da percentagem referida.

Esta «igreja» negoceia assim com os seus «crentes» e, apesar disso, não paga impostos em alguns países, como é o caso de Portugal.

20 de Julho

REGRESSO a Lisboa. A primeira questão que me é colocada tem a ver com o convite para ser membro do «staff». Oferecem-me o mais alto cargo disponível que existe na Igreja Portuguesa de Cientologia: adjunto do director executivo, o espanhol Mendez. A minha tarefa seria colaborar com ele na preparação dos programas de trabalho, como se eu não soubesse que estes não só já chegam prontos como são iguais para todas as ORG que actualmente existem.

Eles dizem-me: «Yo soy el hijo de puta! aquel de quién los otros no gustam y tu solo tienes que decir a ellos lo que hacer…»

Eu seria o intermediário para as suas ordens dirigidas aos membros do «staff». Como as ordens, para além de rígidas, não são fáceis de cumprir, a minha tarefa será, em nome dele, fazer com que sejam cumpridos todos os projectos, cada vez mais ambiciosos.

24 de Julho

PERDIDO por um, perdido por mil: aceito. Feitas as contas, após estes quatro meses de trabalho e tendo recolhido cuidadosamente toda a informação que julgo mais do que suficiente para ser um contributo sério que leve as polícias a investigar esta organização, ter-lhes obtido a confiança é a minha grande oportunidade de realizar o trabalho final: descobrir onde guardam as confissões escritas e, depois, publicar este trabalho. As confissões escritas encontram-se no primeiro andar, no cacifo da Joana.

27 de Julho

DEPOIS de assinar os papéis que me vinculam à IPC, sou informado pela oficial de ética de que tenho de preencher mais alguns impressos e efectuar vários testes, um dos quais é o detector de mentiras (E-Meter).

Não me mostro impressionado, até porque sei que o teste não está preparado, mas, como mais vale jogar pelo seguro, alego que tenho vários assuntos de trabalho para resolver e que dentro de uma semana, no máximo duas, poderei dedicar-me a tempo inteiro à cientologia. Sara anuncia-me que Tânia (a espanhola que colocou ordem na IPC) e Mark (um alemão residente em Madrid), que já cá esteve por duas vezes, ficaram muito entusiasmados com a minha adesão à cientologia, como membro do «staff». Mostro-me satisfeito pelo facto. A minha presença na IPC é cada vez mais espaçada e resume-se a brevíssimas reuniões sobre funções que «virei» a desempenhar.

3 de Agosto

ELISA e João encontram-me no restaurante e insistem para que eu faça o mais depressa possível o teste com o E-Meter. Julgo notar em A.C. um olhar de desafio, sobretudo quando ela insiste em estar presente. Um auditor espanhol, profissional, está pronto para me auditar e, entre muitas outras questões, colocar a tal que irá fazer saltar o ponteiro do E-Meter: «Você está aqui para, de alguma maneira, prejudicar a cientologia?»

Decido não arriscar, porque as consequências serão imprevisíveis. Eu conheço a máquina diabólica e conheço-me a mim. Sei que a pergunta será efectuada várias vezes e sempre de forma inesperada.

A cientologia acabou para mim.

Para trás ficaram os dias de tortura, as noites sem dormir, as alucinações com máquinas que comandam o cérebro, os combates mentais e a vida promíscua com uma organização que deve ser muito bem investigada pelas polícias. Este é apenas o contributo de quem soube que no dia 26 de Julho foi efectuado um trabalho de «assists» a um indivíduo com sintomas de trombose. Em vez de ser levado para o hospital, o homem ficou durante seis horas nas mãos de Teresa e Juan, num quarto exíguo. Uma ex-vendedora e um espanhol de profissão desconhecida a cuidar de um homem cuja vida terá ficado por um fio.”

Clique AQUI para abrir o índice dos posts mais importantes a respeito da organização criminosa autodenominada religião (O que é Cientologia, Dianética, Quem foi seu fundador L. Ron Hubbard, O Grande Segredo da Cientologia)

12 thoughts on “Três meses com a Cientologia

  1. Resolvi ler , porque tenho meu marido que faz parte desta “religião”na Italia … Percebo a mudança radical, e isto esta colocando meu casamento em chek. Se eu pedir para escolher acho que estarei sozinha…mas tudo o que voce escreveu, procede! Não sei mais como agir poeque eu moro no Brasil e ele trabalha na Italia, enquanto moravamos junto nao tinha acontecido…foi quando resolvemos voltar para o Brasil e ele ficou! Mas faz sentido a baixa auto estima! Agora o que faço ???
    Att.

  2. Conheço pouco sobre cientologia por conhecer pessoas que praticam principalmente a dianética, mas pelo pouco que li -li por cima o texto, por parecer uma análise superficial, tendenciosa e sensacionalista. Para começar, 2 coisas demonstram como a crítica acima pode ser idiota: Primeiro – fala-se sobre o problema de se falar de um deus na religião. Nem todas as religiões tem esta necessidade de se citar um deus (quando não são vários) a todo momento… Segundo – o jornalista prova – pela reação – que sentiu algo diferente na audição – e se as dores de cabeça continuam, meu amigo – vc resolve sim com comprimidos, mas vai levar sua vida toda e será um processo que não vai resolver, apenas aliviar. Como jornalista, com certeza faltou ir mais a fundo – me pareceu ter tido medo depois da sua primeira reação. Tente de novo, mesmo que for criticar tudo, para pelo menos ter uma informação completa e testes reais e aprofundados.

  3. Na qualidade de autor desta reportagem, em 1997, considero que não faz sentido que seja esquecido o nome do autor, tendo em conta os direitos de autor, ao menos isso…

  4. Henrique Dédalo, na fonte original deste texto não havia menção ao nome do autor, caso tenha alguma forma de comprovar a autoria terei o maior prazer em inserir no texto, obrigado.

  5. estou fazendo terapia dianetica no Brasil e tb sinto fortes dores de cabeca. Mas vou ate o fim pois se for necessario eskecer alguns fatos pra melhorar minha vida que seja feito.

  6. para aqueles que acham que isso é uma religião e que pretende a felicidade, já se perguntaram: se é para a melhoria do ser humano porque não é de graça? e porque é secreto? só por isso deviam ter juizo, porque a logica já vos diz que coisa boa dai nao vem.. ah e esta ultima senhora, dores normalmente são o corpo a dizer que algo está mal, já sabe isso desde a placenta da sua mae, não foi nenhum medico que lhe disse, porque deixa que a convençam do contrario? o que faz estas seitas crescerem é os seres humanos esperarem salvadores divinos em forma de Homens, quando a salvação é uma definição individual e que está sempre nas mãos de cada um, nao depende de dinheiro ou ensinamentos sagrados…

  7. Sou maçon e acredito na simples coisa, cada um procura para si o que achar melhor, acho que estão dando muito foco para uma religião. Se não aprovam então deixem de falar e observar. Se a pessoa entra e se dá mal, então é culpa da pessoa, pois foi ela que escolheu participar.

  8. Isto é simplesmente assustador. Independentemente de funcionar ou não, será positivo uma pessoa anular todas as experiências da sua vida que fizeram dela o que ela é neste momento? Todas as dificuldades, todos os erros, toda a dor que senti na minha vida serviu para aprender e crescer enquanto pessoa, e eu nunca quereria anular isso, porque ia estar a anular-me a mim própria. E daí, talvez seja essa a ideia mesmo. Anular-me para poder substituir-me por uma versão apropriada à scientology. Felizmente, acredito que, havendo cada vez mais pessoas a abrir os olhos e a perceber o que se está a passar, eventualmente isto acabará por desaparecer… Como a IURD. E para quem compara isto a qualquer religião, ou para quem diz, como alguém aqui já disse, que nem todas as religiões precisam de ter um Deus, não há nenhuma religião que mantenha as suas escrituras em absoluto segredo, exigindo o pagamento de milhares de euros para poder aceder a esses documentos. Não há nenhuma religião que persiga as pessoas ou que vasculhe as suas vidas para poder chantagear ou denegrir a imagem de alguém que lhe aponta o dedo. Não há nenhuma religião que destrua famílias como esta o faz. Há milhares de documentos, milhares de entrevistas, milhares de documentários, milhares de processos em tribunal… Quando decidi pesquisar este tema, não estava preparada para a quantidade de material que encontrei. Isto não é uma religião. É um negócio. Nem sequer é um culto, é um negócio fraudulento que pode arruinar a vida dos pobres coitados que, por desespero, por falta de auto-estima, por necessidade de sentir que faz parte de alguma coisa importante, por necessidade de se afirmar, etc, acabe por se encontrar perdido nas mãos destes psicopatas.

  9. Ainda ontem vi um documentário com ex membros desta dita “religião”, lamento o aproveitamento normal da religião pelas amarguras das pessoas, associando a isso o espremer económico, o abuso psicológico e físico já relatados por vários ex membros! Este texto serve de aviso para os que buscam algo mais! Com o avançar dos extremismos, desastres humanitários e instabilidade social, estes “vampiros” criam o seu nicho de mercado! Com práticas inconstitucionais em que qualquer outro praticante seria preso! É esta a verdade: esquema em pirâmide que para além de dinheiro te faz perder a liberdade!

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